Resenha | Os Videntes - Libba Bray

Ano: 2012
Páginas: 600
Editora: iD
Já faz muito tempo que ouço falar das obras da Libba Bray, porém como comprar livros em inglês está ficando mais difícil com a alta do dólar e o único livro dela traduzido era muito difícil de encontrar já que foi lançado pela editora ID, acabei deixando de lado. Até que na Bienal do Livro de SP (sim, faz tempo) acabei achando o livro em uma daquelas lindas promoções e só tenho uma coisa a dizer: COMO NINGUÉM NUNCA FALOU DESSE LIVRO???

Os videntes se passa na Nova York dos anos 20 em meio a melindrosas, lei seca e contrabandistas, e justamente para essa cidade agitada que Evangeline "Evie" O'Neil é exilada após difamar um membro de uma prestigiada família de sua cidade natal. Mas Evie não está triste com isso, se soubesse que esse seria seus destino teria feito isso antes já que sempre sentiu que não combinava com o interior.

Ao chegar na cidade ela se vê maravilhada com tanta coisa acontecendo e logo se vê em meio a shows, festas, compras e é claro as glamorosas garotas  Ziegfeld. Porém nem tudo é perfeito e Evie tem viver com o seu Tio Will, o curador do museu de Norte-americano de Folclore, Superstição e Ocultismo, que tem a moral tão elevada que é chamado de museu dos Insetos Rastejantes.

Ao mesmo tempo que Evie, um serial killer também chega a Nova York, deixando rastros de suas ações por toda a cidade, porém esses não são assassinatos comuns e tudo nas cenas dos crimes remetem ao ocultismo, levando Evie e seu tio a se envolverem numa investigação policial que além de revelar o culpado pode revelar um grande segredo de Evie.

Por se passar numa época que eu nunca tinha visto ser tratada num livro YA, muitas coisas ali para mim foram novas, como os clubes clandestinos, a importância de ser uma garota Ziegfeld e o modo geral em como a sociedade se comporta e confesso que esse estranhamento de atmosfera foi uma das coisas que fez com que a leitura soasse arrastada. Além disso a trama me pareceu um pouco confusa pois ela fica alternando entre presente e passado e as vezes eu não sabia em que tempo o que eu estava lendo acontecia, porém conforme eu ia avançando e entrando mais a fundo no mistério, foi ficando cada vez mais difícil largar o livro pra fazer outras coisas.

Mesmo tendo Evie como personagem principal, o livro também é narrado pelos personagens secundários e com isso conhecemos Memphis (um coletor de apostas), Sam (um ladrão), Jericó (assistente do Tio de Evie), Mabel (melhor amiga de Evie) e Theta (dançarina e amiga de Evie). Todos os personagens são bem construídos e possuem histórias que de um jeito outro estão interligadas entre si e ao mistério do livro e ver como essa ligação acontece pra mim foi o ponto alto dessa história, além de ser possível ver como um mesmo evento é interpretado por pontos de vista diferentes.

A coisa que me chamou mais atenção nesse livro foi a descrição das cenas envolvendo o serial killer e os assassinatos. Por ser um livro voltado para o público jovem eu esperava uma descrição bem por cima das cenas, mas a Libba me surpreendeu com descrições tão detalhadas, que eu conseguia visualizar perfeitamente os corpos mutilados, sentir o cheiro de podridão e sentir repulsa daquela cena a ponto de ter que parar de ler um pouco fazer outra coisa e depois voltar. Já nas cenas envolvendo o serial killer foi bem interessante a construção da motivação dele e espero muito que nos próximos livros seja mantido a mesma linha de vilão.

Esse é o primeiro livro de uma série que infelizmente eu acho que não vai ter o resto trazido para o Brasil, visto que esse livro foi publicado pela extinta editora ID e agora com essa crise várias editoras estão deixando de publicar continuações que não são best sellers, mas caso você possa ler em inglês e se interessou por essa história incrível pode adquirir o segundo volume (Lair of Dreams) e esperar até Outubro para ler Before the Devil Breaks You e descobrir com a Evie e todos esse personagens vão se dar com poderes que vão além de seus controles.

Evento | FLIPOP

Esse fim de semana aconteceu a FLIPOP, o festival de literatura POP organizado pela Editora Seguinte (ou como eu gosto de chamar, o festival que todo mundo precisava) e com toda a certeza do mundo posso dizer que entrou para o hall de melhores eventos da minha vida!

Essa foi apenas primeira edição, mas depois de ver todo o feedback positivo que a galera tá dando nas redes sociais, acredito que essa vai ser a primeira FLIPOP de muitas. Pra começar com pé direito a editora trouxe dois autores internacionais, a Alwyn Hamilton e o Benjamin Alire Sáenz, além de VÁRIOS autores nacionais como Babi Dewet, Bárbara Morais, Eduardo Cilto, Eric Novello, Frini Georgakopoulos, Larissa Siriani e Luíza Trigo.

A Seguinte acertou em cheio em preferir fazer um evento com menos pessoas, criando um ambiente intimista e cheio de respeito. Era lindo ver autores andando por todos os lados, conversando e trocando experiencias com os leitores na maior calma, sem todo aquela loucura que vemos nas bienais da vida e isso me fez pensar que precisamos muito por mais eventos assim, que aproxime autores de leitores para que a relação entre eles seja mais de amigos do que de fã e ídolo.
A FLIPOP foi bastante centrada em discutir temas que permeiam o gênero YA e teve painéis com temas bastante relevantes como por exemplo o poder da internet, clichês, dicas de escrita e adaptações literárias. No sábado o único painel que assisti  foi o sobre clichês com a Iris Figueiredo e o Vitor Martins. Infelizmente não peguei ele do começo, mas foi um bate papo sobre os clichês no YA e sobre como eles podem fazer tanto bem quanto mal para a história. Uma coisa que me chamou bastante atenção quando foi dito e que eu não havia percebido é que quando há clichês significa que estão tendo muitas histórias sobre um determinado gênero e que estamos percebendo que a representatividade nas histórias está ficando maior graças aos clichês que estão se formando sobre ele.

No final desse dia teve o tão aguardado baile da seleção e MEU DEUS QUE BAILE! A decoração do lugar estava linda, com balões, globo de luz, mesa decorada com a capa dos livros e TINHA ATÉ OS VESTIDOS DA AMERICA PARA VESTIR!! Como tenho espirito de velha eu não conhecia a maioria das musicas que tocaram lá, mas realizei o sonho de "dançar" as coreografias do Just Dance em uma festa então foi bem divertido ^^
No Domingo assisti o painel sobre adaptações e transmídia com a Larissa Siriani e a Luiza Trigo, onde elas falaram sobre como foi ter um livro adaptado (Luiza teve "Meus 15 anos" transformado em filme) e como é adaptar um livro (Larissa Siriani adaptou "Senhora" em uma websérie chamada Dona Moça). Esse painel foi repleto de histórias engraçadas e inspiradoras, passando a mensagem de que tudo é possível basta ter força de vontade, como por exemplo fazer uma websérie com 500 reais ou ter poder sobre o roteiro da adaptação do seu livro ou nada feito (me lembrou muito a J.K ^^).

O outro painel do dia e o meu favorito do evento foi o Profissão fã, com Babi Dewet, Frini Georgakopoulos e Mayra Sigwalt. Esse painel me representou num nível que não sei nem explicar, tudo bem que o foco ali era contar sobre como elas conseguiram "monetizar" a condição de fã, mas foram tantas histórias sobre o que é ser fã, as loucuras e como isso nos fez ser o que somos hoje, que no final do painel quando a Frini leu um texto do livro dela foi difícil segurar as lágrimas.
Além dos painéis na FLIPOP havia um estande da Saraiva com livros da Seguinte e dos autores convidados (com preços tão salgados que eu só comprei os que eu queria muito que fossem autografados), uma cabine de fotos maravilhosa, um jogo de tiro ao alvo (em homenagem ao livro rebelde do deserto) e um estande de encher os olhos do turista literário (que a Ray me convenceu a assinar, então já sabem que daqui um tempo teremos alguns unboxing)
Ao final de cada dia ocorria uma sessão de autógrafos com os autores internacionais gincanas, sorteios e um bate-papo com a equipe da Seguinte, onde foram feitos muitos pedidos de autores para o próximo evento, além de algumas perguntas e críticas sobre o mesmo. A Ray pegou autógrafo da Alwyn que foi uma fofa conversando com os leitores e é dona do par tênis mais cool do mundo.
Só digo que a Seguinte arrasou com esse evento! Espero muito que ele se torne anual, que cresça (mas que não perca esse ambiente tão gostoso que senti nessa edição) e que mais autores e editoras se juntem a esse projeto tão incrível que é celebrar a literatura. VALEW SEGUINTE!

A pressão da comunidade literária

Já faz um tempo que venho percebendo que estar no meio da comunidade literária fez com que meus hábitos de leitora mudassem, estar no meio de tanta gente que compartilha o mesmo amor de livros que eu no começo foi um coisa maravilhosa, pois sempre tinha alguém para conversar sobre determinado livro, mas agora sinto que está se tornando uma coisa sufocante.

São vários posts de resenhas, lançamentos do mês, book haul, lidos do mês, tags, indicações e com isso tudo me vejo afogada num mar de informações sem saber por onde começar e com o sentimento de ser o coelho da Alice, sempre atrasada. Isso sem contar as famosas bookshelf tours que me impactam de maneira visual, pois elas são repletas de livros, todos em perfeito estado e em edições pra deixar qualquer louco por livros com um invejinha. 

Percebi que toda essa exposição estava me fazendo mal quando olhei pra minha estante e vi que a quantidade de livros para ler estava ficando cada vez maior e meu ritmo de leitura estava diminuindo. Aí me coloquei na famosa regra de só comprar novos quando houvesse terminado minha pilha, só que ali tinham exemplares que eu havia comprado a cerca de 3 anos e que hoje em dia não me chamavam mais a atenção e nessa onda de ler tudo o que eu tinha sem restrições, a leitura se transformou em uma obrigação e logo comecei a troca-lá por outras coisas, como Netflix, jogos ou assistir vídeos de booktubes e alimentar ainda mais o coelhinho da Alice.

A princípio não reparei que o problema era esse "me forçar a ler" e então comecei a diminuir minhas inscrições em canais do Youtube pois pra mim eu estava mais vendo gente falando sobre livros em vez de eu ler e falar sobre eles eu mesma. Só que isso não deu certo e resultou em vários livros começados e abandonados com menos de 20 páginas lidas para quando finalmente achava um livro que me prendia lia ele em 1 mês e demorava mais uma vida para achar outro. Só fui perceber o que estava realmente me afetando quando vi alguns vídeos no canal da Ariel Bisset, onde ela fala exatamente isso: o excesso de livros, a pressão para ler rápido ou de sempre está em dia com os lançamentos. 

Com esses vídeos vi que o problema não era só comigo e que muita gente da comunidade também estava se sentindo assim. Foi uma descoberta tão impactante que depois disso comecei uma limpa na minha estante, separando todos os livros que eu sabia que não ia mais ler (para doação ou para vender em algum sebo), decidi ignorar o desafio de leitura do Goodreads, além de ter reformulado a regra da compra de novos livros: agora só irei comprar os que irei ler imediatamente, nada de comprar para deixar na estante. Só de fazer essa limpa e ver na estante livros que tenho vontade de ler (e não vou negar, aquele espacinho desocupado indicando que poderiam caber mais livros) me deu um gás tão grande que rápidinho achei um novo livro para ler e com aquela vontade de não fazer mais nada a não ser lê-lo.

Sei que é um pouco controverso fazer um post desses aqui no blog, mas resolvi fazê-lo mesmo assim, porque ler é algo que eu uso para escapar dos problemas e não para ser mais um, além disso podem existir outras pessoas que estão com o mesmo dilema e que só precisam de um empurrãozinho para se libertarem dessa pressão. Desculpem pelo textão e até a próximo post ^^

*Vídeos da Ariel citados no post [em inglês]
The book purge: http://bit.ly/2tD4dQV
Not A "Proper" Reader?: http://bit.ly/2skvdAR